A cada verso, um reverso. Tenho me surpreendido positivamente, com a postura dos profissionais da Escola de Campo João Beltrão em Palmas-TO, o que acaba reverberando no comportamento dos alunos. Um achado no "mapa" que longe de ser vitrine, é o caminho mais perto, vejo, de se cumprir os direitos culturais. No dia 25/03/2010, tive um papo muito proveitoso com o professor Farias. Algo que seria pecado se não o registrasse. Ainda mais porque no calor da conversa, a bibliotecária Aurenice, da mesma escola, de forma espontânea, entrou na conversa e soltou uma verdadeira pérola: "Eu acho que o teatro combate um pouco dessa clausura, abre portas pra um mundo prazeroso e ele (o surdo ou qualquer homem) se sente mais valorizado como ser humano."
LN: Farias, você foi um dos professores que assistiu ao espetáculo acompanhando 45
alunos da Escola de Campo João Beltrão - Palmas/TO. Fale um pouco sobre essa iniciativa?Farias: Despertar no aluno a curiosidade, o gosto, o interesse e valorização do profissional que atua no teatro. Nesse contexto, percebi que o alunado, antes de ir ao teatro, tinha uma visão meio equivocada do que era um espetáculo. Após assistir ao espetáculo de vocês, os alunos sentiram vontade em atuar como um ator, como atriz. E externaram essa vontade. Isso foi um lado positivo que eu vi dessa ida ao teatro.Também foi positivo pelo contexto que eles moram, na zona rural, por não terem essa oportunidade. Como a escola possibilitou esse momento através da sua colaboração enquanto professora da escola, isso enriqueceu muito a próprio aprendizagem deles, levando em conta, que isso vai refletir nas demais disciplinas curriculares. Tem uma aluna na escola que está idealizando no momento cultural daqui, atuar no palco, porque a professora de teatro despertou nela, essa vontade de estar no palco Ela viu a professora no palco junto com outros artistas, se inspirou também quer experimentar. Na saída do teatro, ela me disse "professor, um dia eu quero apresentar no SESC".
LN: No âmbito escolar, você percebeu algum reflexo positivo dos alunos após essa ida ao teatro?Farias: Sim. Estou organizando um momento cultural na Escola João Beltrão, com a temática poesia, onde vai entrar a questão da expressão corporal, do lúdico e diversas atividades. Para esta apresentação, os alunos estão se inspirando naquilo que assistiram. É a subjetividade deles que fala mais alto. É o natural dos alunos que vai falar alto, mas isso, são resíduos de tudo que já leram e assistiram. Ter assistido vocês, vai ser muito positivo aqui para nós enquanto escola, enquanto educadores de outras áreas do conhecimento. Muito rico, valioso demais! E pra mim, enquanto professor de línguas e linguagens também foi assim, uma oportunidade para eu explorar mais a questão da linguagem corporal que faz parte da linguagem português, até mesmo porque eu sou professor especializado em libras. Percebo que o teatro tem fundamental importância para a gente que trabalha com alunos e pessoas com surdez.
LN: Meses atrás, comentei com os integrantes do nosso grupo que Diego Molina, artista convidado para estar conosco no próximo trabalho, o SOL NOS OLHOS, dirige um grupo teatral no Rio, os “Inclusos e os Sisos”, cujo trabalho permeia por essas minorias da sociedade. Agora, fico surpresa dessa sua visão, da colaboração das artes cênicas para com os surdos. Fale um pouco sobre isso?Farias: Na minha especialização que fiz no Rio, eu atuei no teatro com libras numa peça teatral contracenando com alunos surdos. A minha parceira era uma aluna. Dentro dessa apresentação nós dançávamos forró e mesmo sem ela ouvir nada, ela sentia a vibração, sobre um tablado. Da vibração sobre o corpo da pessoa. Eu conduzia os passos e a fala era a libra. É um dos maiores Institutos do Brasil, onde estudei, o INES. Eliene, as expressões corporais e faciais que vocês fazem, fizeram no palco, já facilita as pessoas com surdez. Por exemplo, você com aquela cara, fisionomia de uma pessoa com raiva, ele, o surdo, entende. Aquela demonstração, aquela cena, que você joga água no corpo, demonstrando bastante calor, ele entende. O que ele não vai compreender no teatro e precisa de intérprete é na hora da linguagem verbal. Quando lá no espetáculo, você falou “Palácio do Araguaia, endereço novo e endereço antigo”, ali, enquanto sujeito socialmente dito, você acabou com a comunicação dele com os atores. O espetáculo para ele foi assistido em parte, não como um todo, entende¿ Pra você se situar, Palmas hoje, tem aproximadamente mais de seiscentas pessoas com surdez que a habitam e que estão inseridas em todos os contextos palmenses: escola, teatro, feiras, cinema, num momento político, numa reunião, supermercado, fazendo compra...Tudo corpo a corpo. O real é o mais importante. Se você vai falar da lua e você faz o sinal da lua, ela não compreende. Porém, se você pegar a figura e mostrar, ela compreende. Por isso que o teatro enriquece muito, porque ele mostra a realidade e o concreto. E é o concreto que possibilita o aprendizado do aluno. Se você for buscar esse diagnóstico em relação ao IBGE você não encontrará. Mas junto à Secretaria da Educação, tanto Municipal, quanto Estadual, você encontra. Tais informações foram colhidas da através da fala de um profissonal especialista em libras. Uma outra fonte de pesquisa são as igrejas. O padre Aloísio faz missa utilizando intérpretes. As Testemunhas de Jeová, faz um trabalho interessantíssimo: eles alfabetizam. As artes, saiba, estão ficando para trás. Aqui em Palmas, principalmente a Canção Nova e a Testemunha Jeová estão desempenhando um papel importante nesse sentido. Elas buscam, tem a preocupação de integrar o sujeito na sociedade. Aqui em Palmas, inexiste trabalho teatral com intérprete de libras, porque não tem profissionais. E se vocês fizerem isso no próximo trabalho, saiba, será algo inédito e inovador.
LN: É mesmo? Pois eu havia sonhado isso em janeiro para o próximo trabalho, pensando no Molina! em lutarmos por angariar recursos e levarmos um intérprete para o palco.Farias: Pois se vocês fizerem isso, repito, será inovador e inédito. Eu apoio e garanto que eu mesmo levo uma parcela grande de surdos para assisti-los. Porque pra eles é complicado...
LN: Você disse que atuou na gerência da educação especial do Município de Palmas no período de 2005 a 2008. Nesse período, tivemos no ministério da Cultura, Gilberto Gil que teve atuação marcante de forma positiva na área cultural do país. Você percebeu algum impacto, alguma influência ou mudança, visto que a educação está imbrincada com a cultura?Farias: Aconteceu um movimento muito bom em Palmas nessa época, que envolveu a comunidade no geral. Foi um dos projetos que achei mais bacana, algo cultural de mudar visões, concepções. Mas da área da cultura em específico, não acompanhei, o meu foco eram políticas educacionais inclusive para implementar e implantar polícias educacionais inclusivas...Teve uma coisa tão engraçada que a gente fez nessa época que foi um chamamento da sociedade palmense para esta questão da surdez. Fomos na rua, na Av. JK. Fizemos panfletagem chamando a sociedade pra abraçar a causa das pessoas por conta da deficiência. Fizemos intervenções teatrais no terminal rodoviário. Foi assim, levamos cadeira de roda, bengalas e utilizamos os passageiros. Fizemos a simulação nas cadeiras de rodas. Sugeríamos também aos motoristas para que eles sentassem nas cadeiras, para eles sentirem na pele as limitações. Esse projeto foi denominado PRIMEIRA SEMANA DE SENSIBILIZAÇÃO SOBRE AS PESSOAS COM DEFICIENCIA.
LN: Sou curiosa a respeito desse termo "Inclusão". Para muitos, soa como exclusão. Me fale um pouco sobre esse termo.Farias: Uma coisa que eu não gosto de falar é que você tem que se colocar no lugar no outro. Não, não gosto de falar isso pra ninguém. Não, não tem que se colocar no lugar do outro, você tem que pelo menos tentar compreender aquele momento que o outro passa, que o o outro vive...Eu coloco isso muito nas minhas palestras...como esse cara que não tem braço e perna, faz suas necessidades fisiológicas?...Você tem que tentar entender e compreender ...por isso que eu acho que esse termo inclusão deveria ser substituído por INCLUSAO-HUMANIZAÇÃO.
Professor Farias é graduado em Letras pela Fundação Universidade do Tocantins - UNITINS, especialista em Libras pela UNITINS, e em educação especial na área da deficiência auditiva (Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES-RJ). Pós-graduado em Gestão Escolar – UFT. Atualmente é professor de Língua portuguesa no sistema municipal de ensino, professor da faculdade UTOP . Atuou como gerente de educação especial na prefeitura municipal de palmas (2005-2008)