quinta-feira, 1 de abril de 2010
acontece, mas poucos gatos pingados vão...
Chegando em casa ontem depois do trabalho, Rodolfo Ward me convidou para participar de uma das programações da UNITINS - Cinema & Literatura. O filme escolhido, "Grande Sertão: Veredas", dirigido pelos irmãos Geraldo e Renato Pereira, baseado no livro de Guimarães Rosa. Em menos de meia hora já estava eu de banho tomado e dentro do auditório. Abertura. Apresentação do professor Roberto Amaral que, após a exibição faria a análise da obra. Na platéia, não mais que 12 pessoas, incluíndo organizadores e técnicos. "Angústia da influência", expressão até então por mim desconhecida. O norte para a análise do filme, por Amaral. O filme, seu objeto de estudo desde a época de seu doutorado. Foi muito bom saber e participar de tal iniciativa. Um convite à comunidade para o encontro e trocas. Pena! não esteve comunidade...mas as cadeiras vazias, as 168 cadeiras vazias se ouvissem e pudessem externar algum pensamento, certamente agradeceriam ao professor por mais um despertar. A valorização das "fontes bebidas", o "suporte" para as criações. A busca dos artistas pósteros para estar "lado-a-lado" daqueles que se consagraram. As recriações. Amaral perpassou por Shakeaspeare, Freud para "clarear" o que é a angústia da influência. Saí de lá, com ânimo bom. Oxigênio no cérebro. Vontade de que tal acontecimento repetisse, com a mesma leveza, clareza, diálogo e com mais participantes. Num dos corredores da Faculdade, a exposição de obras de Rodolfo. Belíssimas fotografias de flores tropicais. Do Tocantins. Fomos até sua sala de trabalho. Na mesa, um envelope aberto. Fotografias. Olhos indígenas que me chamou atenção e pedi para ver. Eram registros de Edgar Morin conhecendo Tocantins no ano passado, expressando sua alegria de estar num outro chão. Registros feitos por Rodolfo. E o pequeno-grande fotógrafo, apesar da pouca idade, tem registrado na memória e nas "lentes" importantes acontecimentos da terrinha. E ele, chegou em Palmas, numa época em que a avenida JK era de terra. Nada de asfalto. Na sua casa, a decoração, eram cobras, aranhas "enlatadas" e postas para apreciação. Besouros enormes que ele adorava colecionar. E no entorno do Palacinho, cinco casas levantadas. Numa, a que ele morava. O menino que respirou do começo de um tempo. O "ser-tão" que já não era mais "só" verde, azul, alaranjado, começava a ficar "cinza". Concreto e cimento. Num momento em que poucos gatos pingados aqui estavam. "Quinem" no auditório que ontem, apresentava o maravilhoso Grande Sertão. Veredas....E aguardo o domingo próximo, para participar no SESC-Palmas do "Diálogo entre Literatura e Teatro". E torço para que pinguem mais gatos e a troca de conhecimentos se torne mais "Tão Grande", para o "ser".
quarta-feira, 31 de março de 2010
olhar de quem faz...

No primeiro dia de espetáculo, ao término, papeei um pouco com RONALDO ARAÚJO, militante do teatro em Palmas que muito representa para a cultura do Tocantins.Ronaldo é ator, diretor teatral, poeta. Sua caminhada no teatro começou na prática, em 1979 na peça "O Cangaço". Depois foi para Rio, fez uma Oficina com Hamir Haddad.Voltou para Fortaleza e montou a peça "Velhos Moços" de sua própria autoria, momento em que se lançou como diretor.Passou por Piauí e montou o "Santo Inquérito" de Dias Gomes, dentre tantos trabalhos montados. Quando mudou para o Tocantins, fundou, juntamente com amigos, o grupo "Gente de Teatro" em Miracema.De lá prá cá, dirigiu e atuou em muitas peças teatrais, rodando pelo Brasil e participando de oficinas teatrais com respeitados nomes do teatro brasileiro. Na literatura venceu editais de poesia e mantém uma página literária na internet que carrega parte de seus textos em prosa e verso.Porque tive vontade de saber um pouco mais de suas impressões, externei a vontade através de email. Acabo de receber dizeres seus, que abaixo publico:
LN: Sei que você é "história viva" do teatro do Tocantins. Pra nós, foi uma grande satisfação tê-lo na platéia no dia de estréia. Nós recém-chegados na capital e poder contar com seus "olhos" e "olhares" no primeiro dia. Poderia nos dizer das suas impressões?
RONALDO ARAÚJO: Então. Gostei muito do espetáculo, e por vários motivos.
Primeiro vocês foram arrojados artisticamente em apostar numa proposta ousada, onde a dança passa a ser uma linguagem aberta para outras possibilidades contemporâneas. Depois, porque conseguiram dar uma estética encantadora à temática escolhida, utilizando-se da dança, da interpretação e da palavra, criando uma dramaturgia coreográfica. Senti falta somente de um diretor de cena. Não sei quem dirigiu e como dirigiu, mas, senti falta do olhar de uma direção de cena.
LN: Na sua opinião, qual o maior entrave para a formação de platéia em Palmas?
RONALDO ARAÚJO: Esse é um problema crônico das artes cênicas em Palmas. Criação de platéia... Para mim, o maior entrave está na pouca produção de espetáculos e na falta de incentivo nas escolas e nas empresas. Palmas é uma cidade anticultural por natureza. Por isso, é preciso esforços redobrados para levar público aos espetáculos. Daí a necessidade de camapanhas e movimentos em prol da formação de platéia.
LN: O espetáculo TORRE NEGRA tem conseguido de forma "guerrida" circular pelo interior do Estado, foi para o Sul do Brasil e agora ruma para o Norte...o que você considera de mais grandioso nessa iniciativa de vocês?
RONALDO ARAÚJO: A coragem e o investimento de cada pessoa envolvida no projeto, pois não contávamos com nenhum recurso e montamos acreditando na importância do produto. Esperar por recursos para poder montar seu trabalho aliena o artista. Creio que é possível montar bons espetáculos pela força dos próprios artistas.
LN: A nossa realidade aqui em palmas, no setor artístico, é ainda de cumprir a terceira e quarta jornada de trabalho, porque ainda não enxergam o "ator" enquanto um profissional qualificado e sim, um "mero" brincador da representação. Sei que vocês do Torre Negra ensaivam de madrugada, porque cada integrante assumia outros compromissos de trabalho. Conosco, no NA PALMA DOS OLHOS, não foi diferente, trocando das madrugadas de vocês, pelo terceiro turno. Nosso! Comente um pouco sobre essa questão da profissionalização do setor das artes cênicas?
RONALDO ARAÚJO:Essa realidade é um pouco cruel e um pouco romântica, pois como podemos observar isso sempre aconteceu no mundo das artes. Artistas têm que se desdobrar, pois precisa lutar para sobreviver e para fazer sua arte, pois nem sempre a arte dá as condições para que seu trabalho flua naturalmente em horários normais, vamos dizer assim. Isso ainda vai continuar assim por muito tempo, mas precisamos lutar por condições adequadas de trabalho. Precisamos nos organizar, dar direção à nossa carreira, enfim, profissionalizar o nosso trabalho, mas, para isso, precisamos estar devidamente preparados como classe reconhecida na sociedade, o que ainda vai levar alguns anos, principalmente aqui no Tocantins.
terça-feira, 30 de março de 2010
eterna novidade, um heterônimo de Pessoa
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo.
(ALBERTO CAIERO)
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo.
(ALBERTO CAIERO)
segunda-feira, 29 de março de 2010
artes, surdez, clausura?
A cada verso, um reverso. Tenho me surpreendido positivamente, com a postura dos profissionais da Escola de Campo João Beltrão em Palmas-TO, o que acaba reverberando no comportamento dos alunos. Um achado no "mapa" que longe de ser vitrine, é o caminho mais perto, vejo, de se cumprir os direitos culturais. No dia 25/03/2010, tive um papo muito proveitoso com o professor Farias. Algo que seria pecado se não o registrasse. Ainda mais porque no calor da conversa, a bibliotecária Aurenice, da mesma escola, de forma espontânea, entrou na conversa e soltou uma verdadeira pérola: "Eu acho que o teatro combate um pouco dessa clausura, abre portas pra um mundo prazeroso e ele (o surdo ou qualquer homem) se sente mais valorizado como ser humano."
LN: Farias, você foi um dos professores que assistiu ao espetáculo acompanhando 45
alunos da Escola de Campo João Beltrão - Palmas/TO. Fale um pouco sobre essa iniciativa?
Farias: Despertar no aluno a curiosidade, o gosto, o interesse e valorização do profissional que atua no teatro. Nesse contexto, percebi que o alunado, antes de ir ao teatro, tinha uma visão meio equivocada do que era um espetáculo. Após assistir ao espetáculo de vocês, os alunos sentiram vontade em atuar como um ator, como atriz. E externaram essa vontade. Isso foi um lado positivo que eu vi dessa ida ao teatro.Também foi positivo pelo contexto que eles moram, na zona rural, por não terem essa oportunidade. Como a escola possibilitou esse momento através da sua colaboração enquanto professora da escola, isso enriqueceu muito a próprio aprendizagem deles, levando em conta, que isso vai refletir nas demais disciplinas curriculares. Tem uma aluna na escola que está idealizando no momento cultural daqui, atuar no palco, porque a professora de teatro despertou nela, essa vontade de estar no palco Ela viu a professora no palco junto com outros artistas, se inspirou também quer experimentar. Na saída do teatro, ela me disse "professor, um dia eu quero apresentar no SESC".
LN: No âmbito escolar, você percebeu algum reflexo positivo dos alunos após essa ida ao teatro?Farias: Sim. Estou organizando um momento cultural na Escola João Beltrão, com a temática poesia, onde vai entrar a questão da expressão corporal, do lúdico e diversas atividades. Para esta apresentação, os alunos estão se inspirando naquilo que assistiram. É a subjetividade deles que fala mais alto. É o natural dos alunos que vai falar alto, mas isso, são resíduos de tudo que já leram e assistiram. Ter assistido vocês, vai ser muito positivo aqui para nós enquanto escola, enquanto educadores de outras áreas do conhecimento. Muito rico, valioso demais! E pra mim, enquanto professor de línguas e linguagens também foi assim, uma oportunidade para eu explorar mais a questão da linguagem corporal que faz parte da linguagem português, até mesmo porque eu sou professor especializado em libras. Percebo que o teatro tem fundamental importância para a gente que trabalha com alunos e pessoas com surdez.
LN: Meses atrás, comentei com os integrantes do nosso grupo que Diego Molina, artista convidado para estar conosco no próximo trabalho, o SOL NOS OLHOS, dirige um grupo teatral no Rio, os “Inclusos e os Sisos”, cujo trabalho permeia por essas minorias da sociedade. Agora, fico surpresa dessa sua visão, da colaboração das artes cênicas para com os surdos. Fale um pouco sobre isso?
Farias: Na minha especialização que fiz no Rio, eu atuei no teatro com libras numa peça teatral contracenando com alunos surdos. A minha parceira era uma aluna. Dentro dessa apresentação nós dançávamos forró e mesmo sem ela ouvir nada, ela sentia a vibração, sobre um tablado. Da vibração sobre o corpo da pessoa. Eu conduzia os passos e a fala era a libra. É um dos maiores Institutos do Brasil, onde estudei, o INES. Eliene, as expressões corporais e faciais que vocês fazem, fizeram no palco, já facilita as pessoas com surdez. Por exemplo, você com aquela cara, fisionomia de uma pessoa com raiva, ele, o surdo, entende. Aquela demonstração, aquela cena, que você joga água no corpo, demonstrando bastante calor, ele entende. O que ele não vai compreender no teatro e precisa de intérprete é na hora da linguagem verbal. Quando lá no espetáculo, você falou “Palácio do Araguaia, endereço novo e endereço antigo”, ali, enquanto sujeito socialmente dito, você acabou com a comunicação dele com os atores. O espetáculo para ele foi assistido em parte, não como um todo, entende¿ Pra você se situar, Palmas hoje, tem aproximadamente mais de seiscentas pessoas com surdez que a habitam e que estão inseridas em todos os contextos palmenses: escola, teatro, feiras, cinema, num momento político, numa reunião, supermercado, fazendo compra...Tudo corpo a corpo. O real é o mais importante. Se você vai falar da lua e você faz o sinal da lua, ela não compreende. Porém, se você pegar a figura e mostrar, ela compreende. Por isso que o teatro enriquece muito, porque ele mostra a realidade e o concreto. E é o concreto que possibilita o aprendizado do aluno. Se você for buscar esse diagnóstico em relação ao IBGE você não encontrará. Mas junto à Secretaria da Educação, tanto Municipal, quanto Estadual, você encontra. Tais informações foram colhidas da através da fala de um profissonal especialista em libras. Uma outra fonte de pesquisa são as igrejas. O padre Aloísio faz missa utilizando intérpretes. As Testemunhas de Jeová, faz um trabalho interessantíssimo: eles alfabetizam. As artes, saiba, estão ficando para trás. Aqui em Palmas, principalmente a Canção Nova e a Testemunha Jeová estão desempenhando um papel importante nesse sentido. Elas buscam, tem a preocupação de integrar o sujeito na sociedade. Aqui em Palmas, inexiste trabalho teatral com intérprete de libras, porque não tem profissionais. E se vocês fizerem isso no próximo trabalho, saiba, será algo inédito e inovador.
LN: É mesmo? Pois eu havia sonhado isso em janeiro para o próximo trabalho, pensando no Molina! em lutarmos por angariar recursos e levarmos um intérprete para o palco.
Farias: Pois se vocês fizerem isso, repito, será inovador e inédito. Eu apoio e garanto que eu mesmo levo uma parcela grande de surdos para assisti-los. Porque pra eles é complicado...
LN: Você disse que atuou na gerência da educação especial do Município de Palmas no período de 2005 a 2008. Nesse período, tivemos no ministério da Cultura, Gilberto Gil que teve atuação marcante de forma positiva na área cultural do país. Você percebeu algum impacto, alguma influência ou mudança, visto que a educação está imbrincada com a cultura?
Farias: Aconteceu um movimento muito bom em Palmas nessa época, que envolveu a comunidade no geral. Foi um dos projetos que achei mais bacana, algo cultural de mudar visões, concepções. Mas da área da cultura em específico, não acompanhei, o meu foco eram políticas educacionais inclusive para implementar e implantar polícias educacionais inclusivas...Teve uma coisa tão engraçada que a gente fez nessa época que foi um chamamento da sociedade palmense para esta questão da surdez. Fomos na rua, na Av. JK. Fizemos panfletagem chamando a sociedade pra abraçar a causa das pessoas por conta da deficiência. Fizemos intervenções teatrais no terminal rodoviário. Foi assim, levamos cadeira de roda, bengalas e utilizamos os passageiros. Fizemos a simulação nas cadeiras de rodas. Sugeríamos também aos motoristas para que eles sentassem nas cadeiras, para eles sentirem na pele as limitações. Esse projeto foi denominado PRIMEIRA SEMANA DE SENSIBILIZAÇÃO SOBRE AS PESSOAS COM DEFICIENCIA.
LN: Sou curiosa a respeito desse termo "Inclusão". Para muitos, soa como exclusão. Me fale um pouco sobre esse termo.
Farias: Uma coisa que eu não gosto de falar é que você tem que se colocar no lugar no outro. Não, não gosto de falar isso pra ninguém. Não, não tem que se colocar no lugar do outro, você tem que pelo menos tentar compreender aquele momento que o outro passa, que o o outro vive...Eu coloco isso muito nas minhas palestras...como esse cara que não tem braço e perna, faz suas necessidades fisiológicas?...Você tem que tentar entender e compreender ...por isso que eu acho que esse termo inclusão deveria ser substituído por INCLUSAO-HUMANIZAÇÃO.
Professor Farias é graduado em Letras pela Fundação Universidade do Tocantins - UNITINS, especialista em Libras pela UNITINS, e em educação especial na área da deficiência auditiva (Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES-RJ). Pós-graduado em Gestão Escolar – UFT. Atualmente é professor de Língua portuguesa no sistema municipal de ensino, professor da faculdade UTOP . Atuou como gerente de educação especial na prefeitura municipal de palmas (2005-2008)
LN: Farias, você foi um dos professores que assistiu ao espetáculo acompanhando 45
alunos da Escola de Campo João Beltrão - Palmas/TO. Fale um pouco sobre essa iniciativa?
Farias: Despertar no aluno a curiosidade, o gosto, o interesse e valorização do profissional que atua no teatro. Nesse contexto, percebi que o alunado, antes de ir ao teatro, tinha uma visão meio equivocada do que era um espetáculo. Após assistir ao espetáculo de vocês, os alunos sentiram vontade em atuar como um ator, como atriz. E externaram essa vontade. Isso foi um lado positivo que eu vi dessa ida ao teatro.Também foi positivo pelo contexto que eles moram, na zona rural, por não terem essa oportunidade. Como a escola possibilitou esse momento através da sua colaboração enquanto professora da escola, isso enriqueceu muito a próprio aprendizagem deles, levando em conta, que isso vai refletir nas demais disciplinas curriculares. Tem uma aluna na escola que está idealizando no momento cultural daqui, atuar no palco, porque a professora de teatro despertou nela, essa vontade de estar no palco Ela viu a professora no palco junto com outros artistas, se inspirou também quer experimentar. Na saída do teatro, ela me disse "professor, um dia eu quero apresentar no SESC".
LN: No âmbito escolar, você percebeu algum reflexo positivo dos alunos após essa ida ao teatro?Farias: Sim. Estou organizando um momento cultural na Escola João Beltrão, com a temática poesia, onde vai entrar a questão da expressão corporal, do lúdico e diversas atividades. Para esta apresentação, os alunos estão se inspirando naquilo que assistiram. É a subjetividade deles que fala mais alto. É o natural dos alunos que vai falar alto, mas isso, são resíduos de tudo que já leram e assistiram. Ter assistido vocês, vai ser muito positivo aqui para nós enquanto escola, enquanto educadores de outras áreas do conhecimento. Muito rico, valioso demais! E pra mim, enquanto professor de línguas e linguagens também foi assim, uma oportunidade para eu explorar mais a questão da linguagem corporal que faz parte da linguagem português, até mesmo porque eu sou professor especializado em libras. Percebo que o teatro tem fundamental importância para a gente que trabalha com alunos e pessoas com surdez.
LN: Meses atrás, comentei com os integrantes do nosso grupo que Diego Molina, artista convidado para estar conosco no próximo trabalho, o SOL NOS OLHOS, dirige um grupo teatral no Rio, os “Inclusos e os Sisos”, cujo trabalho permeia por essas minorias da sociedade. Agora, fico surpresa dessa sua visão, da colaboração das artes cênicas para com os surdos. Fale um pouco sobre isso?
Farias: Na minha especialização que fiz no Rio, eu atuei no teatro com libras numa peça teatral contracenando com alunos surdos. A minha parceira era uma aluna. Dentro dessa apresentação nós dançávamos forró e mesmo sem ela ouvir nada, ela sentia a vibração, sobre um tablado. Da vibração sobre o corpo da pessoa. Eu conduzia os passos e a fala era a libra. É um dos maiores Institutos do Brasil, onde estudei, o INES. Eliene, as expressões corporais e faciais que vocês fazem, fizeram no palco, já facilita as pessoas com surdez. Por exemplo, você com aquela cara, fisionomia de uma pessoa com raiva, ele, o surdo, entende. Aquela demonstração, aquela cena, que você joga água no corpo, demonstrando bastante calor, ele entende. O que ele não vai compreender no teatro e precisa de intérprete é na hora da linguagem verbal. Quando lá no espetáculo, você falou “Palácio do Araguaia, endereço novo e endereço antigo”, ali, enquanto sujeito socialmente dito, você acabou com a comunicação dele com os atores. O espetáculo para ele foi assistido em parte, não como um todo, entende¿ Pra você se situar, Palmas hoje, tem aproximadamente mais de seiscentas pessoas com surdez que a habitam e que estão inseridas em todos os contextos palmenses: escola, teatro, feiras, cinema, num momento político, numa reunião, supermercado, fazendo compra...Tudo corpo a corpo. O real é o mais importante. Se você vai falar da lua e você faz o sinal da lua, ela não compreende. Porém, se você pegar a figura e mostrar, ela compreende. Por isso que o teatro enriquece muito, porque ele mostra a realidade e o concreto. E é o concreto que possibilita o aprendizado do aluno. Se você for buscar esse diagnóstico em relação ao IBGE você não encontrará. Mas junto à Secretaria da Educação, tanto Municipal, quanto Estadual, você encontra. Tais informações foram colhidas da através da fala de um profissonal especialista em libras. Uma outra fonte de pesquisa são as igrejas. O padre Aloísio faz missa utilizando intérpretes. As Testemunhas de Jeová, faz um trabalho interessantíssimo: eles alfabetizam. As artes, saiba, estão ficando para trás. Aqui em Palmas, principalmente a Canção Nova e a Testemunha Jeová estão desempenhando um papel importante nesse sentido. Elas buscam, tem a preocupação de integrar o sujeito na sociedade. Aqui em Palmas, inexiste trabalho teatral com intérprete de libras, porque não tem profissionais. E se vocês fizerem isso no próximo trabalho, saiba, será algo inédito e inovador.
LN: É mesmo? Pois eu havia sonhado isso em janeiro para o próximo trabalho, pensando no Molina! em lutarmos por angariar recursos e levarmos um intérprete para o palco.
Farias: Pois se vocês fizerem isso, repito, será inovador e inédito. Eu apoio e garanto que eu mesmo levo uma parcela grande de surdos para assisti-los. Porque pra eles é complicado...
LN: Você disse que atuou na gerência da educação especial do Município de Palmas no período de 2005 a 2008. Nesse período, tivemos no ministério da Cultura, Gilberto Gil que teve atuação marcante de forma positiva na área cultural do país. Você percebeu algum impacto, alguma influência ou mudança, visto que a educação está imbrincada com a cultura?
Farias: Aconteceu um movimento muito bom em Palmas nessa época, que envolveu a comunidade no geral. Foi um dos projetos que achei mais bacana, algo cultural de mudar visões, concepções. Mas da área da cultura em específico, não acompanhei, o meu foco eram políticas educacionais inclusive para implementar e implantar polícias educacionais inclusivas...Teve uma coisa tão engraçada que a gente fez nessa época que foi um chamamento da sociedade palmense para esta questão da surdez. Fomos na rua, na Av. JK. Fizemos panfletagem chamando a sociedade pra abraçar a causa das pessoas por conta da deficiência. Fizemos intervenções teatrais no terminal rodoviário. Foi assim, levamos cadeira de roda, bengalas e utilizamos os passageiros. Fizemos a simulação nas cadeiras de rodas. Sugeríamos também aos motoristas para que eles sentassem nas cadeiras, para eles sentirem na pele as limitações. Esse projeto foi denominado PRIMEIRA SEMANA DE SENSIBILIZAÇÃO SOBRE AS PESSOAS COM DEFICIENCIA.
LN: Sou curiosa a respeito desse termo "Inclusão". Para muitos, soa como exclusão. Me fale um pouco sobre esse termo.
Farias: Uma coisa que eu não gosto de falar é que você tem que se colocar no lugar no outro. Não, não gosto de falar isso pra ninguém. Não, não tem que se colocar no lugar do outro, você tem que pelo menos tentar compreender aquele momento que o outro passa, que o o outro vive...Eu coloco isso muito nas minhas palestras...como esse cara que não tem braço e perna, faz suas necessidades fisiológicas?...Você tem que tentar entender e compreender ...por isso que eu acho que esse termo inclusão deveria ser substituído por INCLUSAO-HUMANIZAÇÃO.
Professor Farias é graduado em Letras pela Fundação Universidade do Tocantins - UNITINS, especialista em Libras pela UNITINS, e em educação especial na área da deficiência auditiva (Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES-RJ). Pós-graduado em Gestão Escolar – UFT. Atualmente é professor de Língua portuguesa no sistema municipal de ensino, professor da faculdade UTOP . Atuou como gerente de educação especial na prefeitura municipal de palmas (2005-2008)
sábado, 27 de março de 2010
um pouco de Garcia Lorca, para o povo ir além dos "parabéns"
Não gosto de datas comemorativas. Algumas, apenas balelas e motivo para encher de pão e suco, a pança do povo... Reconheço que muitas simbolizam marcos e conquistas. Avanços. O tempo passa, a gente fica com cabelos brancos e enternece com algumas "lembranças", com algumas comemorações que tentam o fazer valer do "bem-comum", do "desenvolvimento" de um lugar. Nesse exato momento, 10:53h do dia 27 de março de 2010, me transporto em pensamentos para São Paulo, no Centro de Convivência Waly Salomão do Complexo Cultural Funarte, onde, daqui há sete minutos, iniciará a MANIFESTAÇÃO DAS ARTES CÊNICAS para celebrar o Dia Internacional do Teatro e o Dia Nacional do Circo. Será, pelo que li nas programações, uma manifestação em prol da cultura do país, com a participação de Sérgio Mamberti, militante das artes cênicas que muito admiro pela sensibilidade artística e pelas iniciativas positivas que tem feito para a classe teatral, enquanto atual presidente da Funarte.
"Será proposta uma moção de apoio pela aprovação no Congresso Nacional de projetos da área cultural que tramitam nas duas Casas do Poder Legislativo, como o Sistema Nacional de Cultura (SNC); o Plano Nacional de Cultura (PNC); a PEC 150/2003, que vincula à Cultura 2% da receita federal, 1,5% das estaduais e 1% das municipais; e o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura), que atualiza a Lei Rouanet; além do Vale-Cultura, primeira política pública governamental voltada para o consumo de bens e serviços culturais."(COMUNICAÇÃO SOCIAL/MINC em 25.03.2010, site www.cultura.gov.br)
Um brinde ao Teatro não só pelo seu dia! mas por ser um instrumento de comunicação. Por ser talvez, a arte que mais sobrevive no tempo, porque jamais permite que o elemento "homem" seja substituído por qualquer "aparato", fruto dos avanços tecnológicos. Nesse dia "festivo", muitos nomes são lembrados. E com apreço, elejo dizeres de GARCIA LORCA que fez da sua caneta e papel, a arma poderosa para "acordar" um povo de um momento vivido. E parte do seu legado cumprido, fica o seu alerta "um povo que não ajuda ou fomenta seu teatro, se não está morto, está um moribundo"
"Será proposta uma moção de apoio pela aprovação no Congresso Nacional de projetos da área cultural que tramitam nas duas Casas do Poder Legislativo, como o Sistema Nacional de Cultura (SNC); o Plano Nacional de Cultura (PNC); a PEC 150/2003, que vincula à Cultura 2% da receita federal, 1,5% das estaduais e 1% das municipais; e o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura), que atualiza a Lei Rouanet; além do Vale-Cultura, primeira política pública governamental voltada para o consumo de bens e serviços culturais."(COMUNICAÇÃO SOCIAL/MINC em 25.03.2010, site www.cultura.gov.br)
Um brinde ao Teatro não só pelo seu dia! mas por ser um instrumento de comunicação. Por ser talvez, a arte que mais sobrevive no tempo, porque jamais permite que o elemento "homem" seja substituído por qualquer "aparato", fruto dos avanços tecnológicos. Nesse dia "festivo", muitos nomes são lembrados. E com apreço, elejo dizeres de GARCIA LORCA que fez da sua caneta e papel, a arma poderosa para "acordar" um povo de um momento vivido. E parte do seu legado cumprido, fica o seu alerta "um povo que não ajuda ou fomenta seu teatro, se não está morto, está um moribundo"
quarta-feira, 24 de março de 2010
sobre a arte

"A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um mundo outro - mais bonito ou mais intenso ou mais significativo, ou mais ordenado - por cima da realiade imediata. (...) Naturalmente, esse mundo outro que o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das idéias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão de mundo (...)." (FERREIRA GULLAR)
terça-feira, 23 de março de 2010
poema do nadador, alerta para o dança-ator?
"A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça,
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Se não, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador." (JORGE LIMA)
parafraseando Jorge de Lima, teço, abaixo, reminiscências de um tempo que passou...retiro do balaio antiga!...mistura das agruras do ofício da educação. Não sou porta-vozes, fui memória viva do passado. Ano! O descaso com "fazedores-de-arte" na educação. Daqueles "inducados" e "inculcados" que pensam que trabalhar com artes nas escolas é brincar de casinha no quintal. No fundo do quintal, onde sobra aquele pequeno canto que ficam os entulhos...aquele pequeno canto esquecido que você começa a brincar e para isso, precisa limpá-lo...a preparação do terreno. Mas quando o terreno começa a ser preparado, o dono da casa encabula, encanta, inspira. Compra novo brinquedo para o filho, apenas para botar os dedos no canto esquecido. Bota entulho. Que desbota... As artes, nas escolas, graças as Deus que hoje mudou. Não é mais aquele pequeno canto que tinha uma função: estravazar! Estravazar no canto mofado, as energias contidas da meninada...Estravazar a campanha política dos polidos que sorriem com dentes de espelho. Espelhos se quebram...e quebraram! Um passado que ficou pra trás. E deixou apenas reminiscências de pensamentos, porque a ruptura "di-gestão" educacional, estudei, percebi, entendi, transformou num passe de mágica, o cantinho pequeno esquecido e colocou nos holofotes os educatores, as educatrizes, as educanrinas e os educanrinos. Viçosos! Todos num só coro, na palmatória que brilha o avanço de Palmas. O integral modelo, na passarela. Do NADA-a-dor...
A Palmas é acolhedora, a Palmas é arrebatedora.
Dança, Edunçator!
A Palmas é tranquila, a Palmas é enigma
na chuva esfria, no calor ensopa
Dança, Edunçator!
a Palmas é amena, a Palmas é pequena
Dança, Edunçator!
A Palmas cresce, o povo fenece
Dança, Edunçator!
A Palmas te encanta, a Palmas te cansa,
a Palmas te eleva, a Palmas te nega.
Dança, Edunçator!
Psiu, se continuar assim, que restará de ti, Edunçator?
dança, você dança.
Paulo Freire está na net. Palmas o acompanha, "educa" diferente. Solene! Hoje, depois da chuva fria que durou muitas horas e alagou tudo, quem dançava, não dança. Nada!
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça,
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Se não, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador." (JORGE LIMA)
parafraseando Jorge de Lima, teço, abaixo, reminiscências de um tempo que passou...retiro do balaio antiga!...mistura das agruras do ofício da educação. Não sou porta-vozes, fui memória viva do passado. Ano! O descaso com "fazedores-de-arte" na educação. Daqueles "inducados" e "inculcados" que pensam que trabalhar com artes nas escolas é brincar de casinha no quintal. No fundo do quintal, onde sobra aquele pequeno canto que ficam os entulhos...aquele pequeno canto esquecido que você começa a brincar e para isso, precisa limpá-lo...a preparação do terreno. Mas quando o terreno começa a ser preparado, o dono da casa encabula, encanta, inspira. Compra novo brinquedo para o filho, apenas para botar os dedos no canto esquecido. Bota entulho. Que desbota... As artes, nas escolas, graças as Deus que hoje mudou. Não é mais aquele pequeno canto que tinha uma função: estravazar! Estravazar no canto mofado, as energias contidas da meninada...Estravazar a campanha política dos polidos que sorriem com dentes de espelho. Espelhos se quebram...e quebraram! Um passado que ficou pra trás. E deixou apenas reminiscências de pensamentos, porque a ruptura "di-gestão" educacional, estudei, percebi, entendi, transformou num passe de mágica, o cantinho pequeno esquecido e colocou nos holofotes os educatores, as educatrizes, as educanrinas e os educanrinos. Viçosos! Todos num só coro, na palmatória que brilha o avanço de Palmas. O integral modelo, na passarela. Do NADA-a-dor...
A Palmas é acolhedora, a Palmas é arrebatedora.
Dança, Edunçator!
A Palmas é tranquila, a Palmas é enigma
na chuva esfria, no calor ensopa
Dança, Edunçator!
a Palmas é amena, a Palmas é pequena
Dança, Edunçator!
A Palmas cresce, o povo fenece
Dança, Edunçator!
A Palmas te encanta, a Palmas te cansa,
a Palmas te eleva, a Palmas te nega.
Dança, Edunçator!
Psiu, se continuar assim, que restará de ti, Edunçator?
dança, você dança.
Paulo Freire está na net. Palmas o acompanha, "educa" diferente. Solene! Hoje, depois da chuva fria que durou muitas horas e alagou tudo, quem dançava, não dança. Nada!
Assinar:
Postagens (Atom)